Publicada originalmente no site Rraurl, 07.05.09 17:45
A história de Paul Mawhinney e seus discos em documentário
O primeiro disco de vinil já produzido, em 1881. O disco mais raro da história. E mais 6 milhões de canções em 3 milhões de discos e mais de 300.000 compactos. Tudo armazenado ao longo de 50 anos por Paul Mawhinney, na cidade norte-americana de Pittsburgh. E tudo isso pode ser seu, querido leitor, ou pode virar um museu, pode ir para o incinerador ou pode continuar morando em Pittsburgh.
A história toda está contada no documentário em curta-metragem The Archive do diretor Sean Dunne, que esteve dentro da selecão oficial do Sundance Film Festival em 2009. O tom emocional fica pesado no final, com direito à cenas de Mawhinney chorando por trás dos óculos escuros e tocando sua “última música”. Mesmo assim, é o maníaco musicólatra que dá os melhores momentos, como quando afirma, categórico, que “a música é mil vezes melhor em vinil”.
Realmente, esse pequeno fato sozinho já serviria como justificativa à monstruosa colecão de discos que ocupa o imenso galpão com temperatura controlada que Mawhinney alugou quando sua esposa deu o esperado ultimato “os discos ou eu”. Junte aí isso a grandiosidade da coleção, com absolutamente tudo que e o meio século dedicação do colecionador e de repente é espantoso o fato de que uma negociação ainda não tenha rolado.
Em tempos de milionários excêntricos dando rolê no espaço, ninguém ainda sacou – pelo menos não o suficiente para fazer uma oferta séria – o quanto a coleção de Mawhinney é significativa, bem cuidada e importante. Não adianta argumentar que deve ter um monte de lixo no meio – não é isso que importa, mas sim a memória músical física coletada nesse tempo. Decepcionado com a falta de sucesso, o colecionador anunciou que pode vender discos específicos em separado, ou em lotes. O valor, 3 milhões de dólares, não é nenhum absurdo considerado o imenso valor cultural do arquivo. Mas mesmo com o suporte oferecido por centenas de fãs de vinil e nerds de música (todos sem a grana, é bom lembrar) a colecão segue sem ofertas sérias.
Podem falar o que quiser, mas a música jamais existiria hoje como ela é se não houvesse uma forma mais barata de transportá-la e ouvir do que a revolução do vinil trouxe no final do século XIX. Afinal, em um suporte de fácil substituição, (o rolo que armazenava música antigamente se rasgava e era difícil de ser substituído em um “tocador”), o vinil foi se aperfeiçoando em qualidade ao longo dos anos e passou do mono ao estéreo. O vinil então saiu dos gramofones e passou a tocar nos toca-discos e neste ponto é o momento que uma história faz nascer a outra, já que daí tivemos os pioneiros da música eletrônica que inventaram a maneira de juntar uma música na outra criando os hoje mega conhecidos SETS e é exatamente isso que faz um DJ ser valorizado, além de seu carisma sobre o palco, sua habilidade técnica de comandar as pick-ups e manipular o vinil para criar novos sons é o que faz com que essa matéria seja registrada pela Rádio E. Não é saudosismo e sim dar valor a um acervo magnífico que os jovens de hoje mal sabem o que é um vinil. Um ser humano sem história é um ser humano vazio e então vamos lutar para que os impostos para os discos importados em geral e também de música eletrônica sejam diminuídos, para facilitar a compra pelos DJs, que realmente apóiam o uso deles, e assim, ouvir a música com qualidade superior em relação aos CDs e MP3 dentro dos clubs, onde nos divertimos e temos acesso a esta tecnologia e consequentemente, revalorizar a profissão do DJ.
Robson Fernandes
Rádio E – Essencialmente Eletrônica